Atual gestão tem como prioridade despoluir a Beira-Mar Norte
A principal e mais polêmica obra de saneamento básico de Florianópolis é a construção da Unidade de Recuperação Ambiental (URA) da Beira-Mar Norte, que promete despoluir a baía da região central do município. Imprópria para banho há 20 anos, a estrutura fará o tratamento da água do mar e da chuva que chegam ao local, liberando 3,5 quilômetros de costa própria para banhistas entre a Guarnição de Buscas e Salvamento do Corpo de Bombeiros e a Ponta do Coral.
Ainda que a Prefeitura Municipal de Florianópolis garanta que, depois das obras, o trecho terá uma redução de coliformes fecais, a comunidade e especialistas em meio-ambiente questionam sobre a qualidade do local que será oferecido para o lazer de turistas e moradores. “São necessárias muitas ações para fazer com que uma praia imprópria há 20 anos seja própria para o contato humano”, alerta a coordenadora do curso de oceanografia Juliana Leonel.
A obra para despoluição da Beira-Mar Norte é formada pela estrutura da URA e mais 16 megaestruturas de concreto na orla da praia, que direcionam a água contaminada das chuvas e de possíveis esgotos irregulares para tratamento na Unidade de Recuperação. De acordo com a Casan, a unidade irá tratar até 13 milhões de litros de água por dia (150 l/s) e fará a eliminação de bactérias por meio de raios ultravioleta. “Iniciando atividade em dezembro de 2018, a Beira-Mar Norte estará balneável na temporada seguinte”, garante Lucas Arruda.
De acordo com as pesquisas de balneabilidade, após 200 metros da costa, a água da Beira-Mar Norte já está própria para banho. Mas, de acordo com a oceanógrafa Juliana Leonel, existe o risco de que a areia em contato com água contaminada por muitos anos tenha absorvido a poluição. “O sedimento, por natureza, acumula muito material e pode ser prejudicial para a saúde humana. O que a prefeitura deveria fazer é um estudo dos compostos na coluna d’água para saber em quais condições está”, explica.
Para o superintendente em saneamento, a obra tem “98% do tempo” de garantia de balneabilidade. “É um copia e cola. Estamos inovando no Brasil, porque essa é a primeira obra nacional que faz esse tipo de tratamento, mas ele existe em outros lugares do mundo. Eu, particularmente, estou muito seguro que a obra vai oferecer qualidade”, replica Arruda. O projeto de balneabilidade da região tem como base estruturas utilizadas em praias da Califórnia, nos Estados Unidos.
A velocidade e priorização dada à obra de balneabilidade da Beira-Mar Norte foi, para Alencar Vigano, presidente da Associação de Moradores do Campeche (AMOCAM), um descaso da Prefeitura de Florianópolis com praias da cidade muito importantes para moradores. “Temos uma situação de complexidade no Sul da Ilha, que boa parte ainda está sem perspectiva de receber rede pública de saneamento. Aí eles chegam e colocam milhões em uma obra de 3,5 quilômetros de balneabilidade questionável. É sacanagem”, protesta.
O gerente de operações da rede de esgoto de Florianópolis pela Casan, Francisco Pimentel, relata que a operadora está dando prioridade para os dois casos. “Não é ou um ou outro. São os dois. Estamos fazendo obras na Beira-Mar Norte e construindo, ao mesmo tempo, a Estação de Tratamento do Sul da Ilha”, responde.
A Beira-Mar Norte é o local mais valorizado de Florianópolis. Seus imóveis têm um valor 100,32% superior à média dos outros bairros da cidade, custando R$ 10.499 o metro quadrado.
Vinicius Ragghianti, coordenador do Plano de Recursos Hídricos de Santa Catarina e engenheiro sanitarista, aponta os ganhos políticos que obras na Beira-Mar Norte trazem para a atual gestão da cidade. “A balneabilidade do cartão postal de Florianópolis é algo que dá muita visibilidade para um governo. Como cidadão, eu entendo os questionamentos sobre a prioridade que é a região no atual contexto. Também acho que a limpeza da Beira-Mar Norte traz benefícios para a sociedade e ao meio-ambiente”, diz.
A construção do Parque Marina Beira-Mar Norte, na mesma região em que acontecem as obras de despoluição, é o principal motivo para que as ações tenham avançado com rapidez. O projeto foi aprovado em setembro deste ano e terá investimento privado estimado entre R$ 65 milhões a R$ 80 milhões.
Em plenária, o vereador Afrânio Boppré afirmou que “construir a marina na Beira-Mar Norte é especulação imobiliária para valorizar os empreendimentos das construtoras”. Para o vereador, o empreendimento deveria ser construído na baía sul, próximo ao Terminal de Integração do Centro (Ticen) de Florianópolis. Entidades representantes do turismo, como o Floripa e Região Convention & Visitors Bureau, fizeram notas apoiando a obra na Beira-Mar Norte.
Estão previstas a construção de duas marinas — uma pública, que comporta 60 veículos náuticos, e outra privada, para 624 embarcações. A maior preocupação quanto à criação do Parque Marina são os efeitos ambientais que o empreendimento pode trazer ao município. De acordo com a Prefeitura Municipal de Florianópolis, a empresa vencedora da licitação do projeto irá providenciar todos os estudos e licenças ambientais necessários para a execução da obra.
Veja os detalhes sobre o projeto aprovado pela Câmara de Vereadores de Florianópolis: